Desde o último título de campeão nacional e a crescente perda de referências de balneário que se iniciou o soundbyte do ADN Porto. Mas o que é isso de ADN Porto? Ou ADN Dragão? Para mim é tão somente a tão propalada mística e é um facto que a mesma se tem vindo a perder, muito fruto do mercantilismo assumido pela SAD, potenciado por uma estratégia (de risco) de venda de jogadores como pedra basilar do financiamento da época desportiva.
Passamos a ser um mero entreposto comercial, em que os jogadores deixaram de sentir o FCP como o pináculo de uma carreira, mas sim uma mera estação na carreira, todos à procura de altos voos (como se não tivessem já voado alto o suficiente). Ora, parecendo algo muito simples, esta estratégia da SAD resultou, no curto prazo no arrecadar de receitas significativas, que de certa forma foram validando o acerto da mesma. No entanto, nada mais errado. Se no curto prazo fomos conseguindo vender ativos e continuar a ganhar, no médio/longo prazo essas vendas todas resultaram numa composição do plantel em que os jogadores deixaram de conseguir perceber o que é o Porto. Quais os fundamentos. Quão Gloriosa é a Insígnia que adorna a camisola. Que aqueles títulos todos foram suados, foram sangrados. Era natural que passássemos um período sem ganhar. Era natural, porque tudo isto é cíclico. A todos os ciclos anteriores de menos títulos fomos conseguindo dar a volta. Porque havia sempre gente no balneário que estava disposta a "morrer", a deixar tudo em campo, só para que no final o Porto vencesse. Não eram apenas jogadores. Eram Adeptos como nós. No fundo, éramos nós que ali estávamos. Esse é o ADN. Essa é a Mística.
O que fazer?
Ora, andamos a falar de ADN Porto, mas depois não arranjamos espaço (nem sequer se reconhece qualidade) nas equipas profissionais para quem tem de facto esse ADN e cresceu dentro do clube. É um autêntico paradoxo! Quem é que então vai transmitir essa cultura Porto? Os jogadores que nasceram para o futebol no Pachuca, no Real Madrid, ou no Lorient? É o Nuno Espírito Santo? O Cândido Costa? O Presidente e Administradores decerto já não parecem ter capacidade para isso. Juntem também uma política desportiva em que o treinador mais parece um adereço, apenas necessário para ciclos curtos, e sempre apostada em descobrir a "next big thing", ao invés de algo pensado.
Mas há uma chave. Se bem que doloroso, há um caminho. Há uma alternativa.
O ano passado a equipa B fez um excelente trabalho com muitos jogadores "prata da casa" (meninos que jogavam contra homens feitos) e havia momentos em que se sentia bem o tal ADN (foram vários os jogos ganhos nos últimos minutos, às vezes em inferioridade numérica). Essa equipa foi campeã. Sabem que mais? Os sub-19 foram bicampeões. Serão todos bons o suficiente para se afirmarem no FCP? Não. Mas serão todos assim tão maus que alguns deles não mereçam uma oportunidade?
O investimento numa equipa B é considerável e de certa forma, afundado, não é transacionável (custos de estrutura de uma equipa profissional, bem como os salários de 25 atletas, mais treinadores, corpo médico, etc...), pelo que a estrutura de custos operacionais da SAD fica bem mais pesada. Logo, esta equipa tem de funcionar como uma espécie de laboratório da equipa A, que permita por um lado ir refinando as qualidades de elementos menos utilizados da A, bem como proporcionar um espaço de upgrade competitivo aos sub-19 mais capazes, tendo entre estas duas realidades um núcleo de 15/16 jogadores (séniores de 1º e 2º ano) que permitam à equipa uma certa coesão/unidade. Junte-se o habitual craque panamiano/nigeriano/<inserir outro mercado>. Também haverá espaço para um ou dois. Haveria necessidade de termos cerca de 50 jogadores sob contrato, o que é manifestamente inferior ao atual (cerca de 64).
Junte-se a isso uma alteração na política de empréstimos de jogadores. Uma substituição por uma outra estratégia. Se o jogador X não consegue subir à equipa A até ao final da sua segunda época de sénior (aos 21 anos), para quê mantê-lo? Que se transacione e se garanta uma percentagem do passe/direito de preferência ou mesmo uma cláusula de recompra. E que se reavive o departamento de scouting do clube para que possa monitorizar a performance destes antigos activos.
Acrescente-se uma questão que poderá vir a ter um impacto significativo na vida, na sustentabilidade do clube. O FCP tem um problema económico e tem um problema financeiro. Económico porque tem uma atividade operacional desequilibrada e cuja continuidade assenta em proveitos contingentes (mais-valias nas vendas de passes e entradas na UCL) ao invés das receitas tradicionais. Financeiro porque o "All-in Lopeteguiano" exigiu um esforço considerável na captação de financiamento (agravado com a exclusão da atividade dos fundos),traduzindo-se o mesmo em taxas de juro elevadíssimas nos empréstimos MLP (150 M € em financiamentos, 15 milhões de euros de custos financeiros, com taxas implícitas de 10%) com um impacto na tesouraria brutal, e que nos leva a hipotecar passes, penhorar receitas futuras provenientes dos patrocínios, bem como a utilização de instrumentos de curto prazo para assegurar a gestão corrente, por exemplo no pagamento de salários (fica caro, muito caro mesmo). O facto de os sucessivos exercícios económicos serem fracos do ponto de vista dos resultados não permite também ter grande poder negocial junto da banca (por exemplo, proceder a liquidações antecipadas de empréstimos/realizar novação de dívida em condições favoráveis). Para haver uma ideia, consultado o orçamento 8e partindo do princípio que o exercício real será idêntico) pagamos só em custos com pessoal cerca de 950 mil € por ponto na última liga portuguesa. Parece muito? É porque é mesmo muito.
Neste momento, a valorização de jogadores atingiu um pico negativo, não se conseguindo gerar mais valias suficientes para cobrir o buraco operacional. O que fazer? Ai vem a parte dolorosa. Porque o ajustamento vai custar. E mais vale custar já do que daqui a 5 anos. Porque aí poderá colocar o clube em coma profundo.É preciso, portanto, confiar e investir na capacidade técnica dos treinadores porque de facto é no treino que se pode fazer evoluir o jogador, sendo que quanto maior a competição interna, maior a probabilidade deste crescer. Se um jogador jovem treina diariamente com jogadores cuja qualidade média é superior à qualidade média de uma equipa do meio da tabela, não evoluirá mais rapidamente? A aposta por isso numa excelente equipa técnica é por isso uma algo fundamental naquilo que aqui se preconiza.
Um jogador passa cerca de 80% do seu tempo em treino, por isso é necessário que os mesmos traduzam estímulos competitivos suficientes para que os jogadores se consigam adaptar ao jogo de forma quase imediata. Seja ele da taça da liga, do campeonato ou de Champions League. Não interessa. Um treino de qualidade resultará num bom jogo.
Neste momento existem os seguintes jogadores com mercado a um preço mais ou menos justo (Danilo,Herrera,Layun) e outros que irão gerar menos mais-valias que o projectado (Brahimi,Indi,Aboubakar, Adrian e coloco já Depoitre). Ora, para efeitos de cobertura do défice orçamental, se conseguíssemos transacionar todos, iríamos provavelmente conseguir alguma folga para investimento adicional (chamemos-lhe Diogo Jota e Oliver). Admitamos também neste exercício teórico, que no final da presente época se consegue também "despachar" os salários do Casillas, Maxi, Varela (dos mais elevados do plantel a par dos elementos entretanto vendidos), e se colocam os excedentários, nem que fosse a custo 0,numa medida de "salary dump" equilibrando por isso os custos com pessoal. Precisamos de maximizar os nossos recursos, precisamos de limar custos com pessoal excedentários. O custo do salário de Casillas e o diferencial face, por exemplo, ao de Fabiano, justifica os pontos ganhos pelo primeiro estar na baliza? Resposta rápida. Não. Maxi faz melhor que Ricardo Pereira? Neste momento, não. Qual o mais barato?
Um plantel do FCP com um desenho similar ao infra apresentado daria com certeza uma boa resposta no campeonato.
GR (J. Sá/Gudino/Fabiano);
DD (R.Pereira/V.Garcia);
DE (A.Telles/Rafa Soares);
DC (Felipe/Marcano/Reyes/Chidozie);
MC (R.Neves/T.Podstwaski/A.André/S.Oliveira/F.Ramos/Oliver/J.C.Teixeira);
Extremos (Diogo Jota, Corona,Otávio,I.Rodrigues);
PL (A.Silva,A.Bueno,G.Paciência).
Não era este um plantel de que nos iríamos orgulhar? Não vestiriam estes aquelas camisolas como se fossem uns de nós? Um plantel que não iria ter problemas nas inscrições para a Uefa. Um plantel que permitiria controlar os custos operacionais. O 11 inicial seria provavelmente mais forte do q o atual e as opções de banco seriam para gente da casa. Que, relembro, somos nós.
Eu sei, é utópico com esta Direção, mas este é o caminho da sustentabilidade, o dar um passo atrás para depois dar dois ou três à frente. A juventude do nosso clube já mostrou q está pronta, pois além dos títulos nacionais nos últimos escalões de formação (equipa B e sub 19),brilha tanto como os outros nas competições de seleções, só precisa de uma oportunidade e de competência técnica dos próprios treinadores. Um exemplo, Ivo Rodrigues era titular da Selecção sub-20, Gelson também. Comparem ambos. Onde andam agora? Pois, dolorosamente, sabemos bem isso.
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